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DOMINGO · 19 DE JULHO DE 2026 · EDIÇÃO ESPECIAL

☕ Bom domingo

É domingo. Na quinta a gente contou que o Brasil vai adotar, junto com a reforma tributária, um sistema chamado split payment: o imposto sobre o que você compra passa a ser recolhido no exato instante em que você paga, indo direto para o governo, sem passar pelo caixa da loja. Se você não leu, ou leu e ficou curioso, hoje a gente explica de novo e com calma.

Vale a pena, porque a parte mais interessante não coube na quinta. Hoje, mais de R$ 1 a cada R$ 5 do imposto federal sobre consumo some no caminho entre o seu bolso e o cofre público. O split payment é a peça chave da reforma para mudar isso, e a mais ambiciosa do mundo: vários países já tentaram algo parecido, sempre em pedaços, e um deles desistiu no meio.

Hoje a gente mostra o que é o split payment, quanto de verdade ele entrega, quem já tentou lá fora e onde pode dar errado. Sem pressa. ☕

Tributos · O caminho do seu R$ 100

Split payment · IBS · CBS · Pix · Boleto · Nota fiscal · Comitê Gestor

O imposto vai deixar de passar pelo caixa da loja

Comece pelo jeito que funciona hoje. Você compra alguma coisa por R$ 100 e a loja recebe os R$ 100 inteiros. Dentro desse valor tem imposto, mas ele não vai para o governo naquele momento: fica na conta da loja por até um mês, até a data de recolher. Todo comerciante, portanto, passa o mês segurando um dinheiro que não é dele.

Quase sempre ele repassa. O problema mora justamente nesse intervalo entre a venda e o recolhimento, porque é nele que o dinheiro pode sumir, de três jeitos: a empresa quebra e não tem com que pagar, o dono usa o imposto para cobrir boleto e fica devendo, ou o negócio foi aberto só para vender, embolsar o tributo e desaparecer antes da cobrança. O governo só descobre semanas depois, quando muitas vezes já não há de quem cobrar.

O split payment, ou pagamento dividido, apaga esse intervalo. No instante em que o seu pagamento é liquidado, o próprio sistema financeiro (o banco, a maquininha, o Pix) reparte o valor: o líquido vai para a loja e o imposto vai direto para o cofre público, na mesma transação. O vendedor nunca encosta no tributo. Repare na diferença: não é que sonegar fique mais arriscado, é que não sobra o que sonegar, porque o dinheiro nunca chegou às mãos de quem poderia sumir com ele.

A regra vale para os dois impostos que estão nascendo agora: a CBS, federal, que substitui o PIS e a Cofins, e o IBS, de estados e municípios, que toma o lugar do ICMS e do ISS. Juntos, eles formam o IVA (imposto sobre valor agregado), o modelo que quase todo país rico usa. Para você, no caixa do mercado, não muda absolutamente nada: o preço é o mesmo e a conta é a mesma. A revolução acontece nos bastidores do pagamento, num pedaço de segundo que você não vê.

Com uma ressalva que vai voltar no fim desta edição: só dá para dividir o que passa por um pagamento eletrônico acompanhado de nota fiscal. Venda em dinheiro, sem nota, continua invisível. O sistema é ótimo para combater quem registra a venda e não recolhe o imposto. Mas quem não registra nada nunca entra no radar dele.

🧠 Economia para não economistas

O IVA, o imposto que se fiscaliza sozinho

O split payment é uma peça da reforma tributária, que troca a bagunça de impostos de hoje (PIS, Cofins, ICMS, ISS) por um imposto único, o IVA (imposto sobre valor agregado), o modelo que quase todo país usa. E o IVA tem uma qualidade que a bagunça atual não tem: ele se fiscaliza sozinho.

O mecanismo se chama autofiscalização. Cada empresa paga imposto sobre o que vende, mas abate o imposto que já pagou nas compras. Para abater, ela precisa da nota do fornecedor, então ela exige essa nota. E a nota entrega o fornecedor ao Fisco. Cada empresa vira, de graça, fiscal da anterior, porque é do interesse dela pagar menos.

No Brasil de hoje, esse mecanismo é capenga. São vários impostos empilhados, e boa parte é cobrada em cascata: imposto sobre imposto, sem direito a abater o que já foi pago. Onde o abatimento existe, costuma ser lento, restrito e cheio de briga na Justiça. Com o abatimento furado, a corrente de fiscalização se solta, e sonegar fica mais fácil. A reforma conserta isso dando crédito amplo e rápido, e é o que faz o IVA voltar a se fiscalizar.

E aqui está o que mexe com o seu bolso: se todo mundo sonega menos, dá para arrecadar o mesmo com uma alíquota menor. Como a lei obriga a reforma a arrecadar o mesmo que hoje, cada real que deixa de vazar vira espaço para baixar o imposto de todos, inclusive de quem sempre pagou em dia.

A autofiscalização é forte, mas falha em dois pontos. No primeiro, o vendedor embolsa o imposto do comprador e desaparece antes de repassar. No segundo, alguém apresenta uma nota fiscal falsa, de uma compra que nunca existiu, e usa esse papel para abater um imposto que ninguém recolheu, sacando dinheiro que nem chegou a entrar. O split payment fecha os dois na origem: se o imposto vai direto para o cofre no instante do pagamento, não sobra o que o vendedor leve, e o sistema sabe na hora quanto imposto de fato entrou, então não devolve crédito sobre um valor que nunca chegou.

🔗 A conexão

Até aqui, uma boa ideia de engenharia. A pergunta seguinte é quanto dinheiro está em jogo nesse intervalo que o sistema promete apagar.

A aposta · A conta já foi dada

FMI · PIS/Cofins · ICMS · Crédito pleno · Sonegação

O split payment trava só a fatia mais fina da sonegação

A alíquota nova da reforma tributária (a CBS e o IBS) não saiu de um chapéu: foi calibrada apostando que a sonegação vai encolher. Segundo um estudo do FMI, para a reforma não perder arrecadação essa sonegação precisa cair quase pela metade. Quanto dessa queda o split payment, sozinho, consegue entregar?

Para responder, pegue tudo que o PIS/Cofins e o ICMS poderiam render num ano e reparta em quatro: o que de fato entra no caixa e três formas de não entrar.

Tributos de consumo · 2024

De tudo que poderia arrecadar, quanto entra e quanto vaza

Cada barra é o potencial do tributo. A faixa vermelha no topo é a única fatia que o split payment trava com precisão.

R$ 14 bi ▼
 
 
 
 
R$ 21 bi ▼
 
 
 
 
PIS/Cofins (federal)
potencial R$ 882 bi
ICMS (estadual)
potencial ~R$ 1,3 tri
Declarou e não pagou, a fatia que o split payment trava
Sonegação, não declara (esconde a venda)
Política, isenções e informalidade
Arrecadado, entrou no caixa (dado real)

Elaboração: Daily Brew, com base no estudo da Receita Federal que mede o gap tributário do PIS/Cofins (RFB 2022), usando a média de 2018 a 2020 aplicada à arrecadação real de 2024. O estudo só cobre o PIS/Cofins; para o ICMS, aplicamos os mesmos percentuais sobre a arrecadação estimada (~R$ 800 bi), como ordem de grandeza, não medição.

Duas coisas saltam. Primeiro, a maior parte do que escapa nem é sonegação: é a perda de política, que junta duas coisas diferentes. De um lado, as isenções que a lei concede de propósito (cesta básica, Simples Nacional). De outro, a informalidade estrutural, a economia que nunca entrou na rede do imposto, como o ambulante sem CNPJ ou o serviço pago em dinheiro. Nenhum sistema de cobrança alcança isso: só encolhe mudando a lei ou formalizando a economia.

Segundo, da sonegação de fato, o split payment trava com precisão só a fatia mais fina: a de quem declara a venda e não repassa o imposto. Pela nossa estimativa, cerca de R$ 35 bilhões nos dois tributos somados, ao lado de barras que passam de R$ 2 trilhões de potencial.

Por que a fatia é tão fina? Porque, como vimos, o split payment só divide o que passa por um pagamento com nota. Quem esconde a venda, subfatura ou vende em dinheiro nunca entra no radar dele, e é aí que mora o grosso da sonegação. Por isso o próprio FMI diz, com todas as letras, que o split payment não será o principal fator dessa queda.

O split payment é real e vai ajudar, dentro desse limite. A questão que fica é se ele dá conta bem até dessa fatia fina, e a que custo. Vários países colocaram o mecanismo de pé antes do Brasil. Vale ver como foi.

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Precedentes · Quem já tentou

Polônia · Itália · Romênia · Peru · Argentina · Reino Unido · Comissão Europeia

Vários países já fizeram isso. Nenhum fez do tamanho que o Brasil quer.

A ideia não é brasileira nem nova. Itália, Polônia, Romênia, Turquia, Argentina, Peru, Nigéria, Egito e Tanzânia já usam ou usaram alguma versão de recolher o imposto na hora do pagamento. Só que todas elas têm uma coisa em comum: são recortes. Valem para um setor que dá problema, para compras acima de certo valor, ou só para quando o cliente é o próprio governo.

O caso polonês é o melhor argumento a favor. A Polônia tornou o mecanismo obrigatório no fim de 2019 para uma lista de produtos historicamente encrencados (combustível, aço, eletrônicos) em notas acima de 15 mil zlotys, algo como R$ 22 mil. Funcionou: o país foi um dos poucos do mundo a reduzir de verdade a própria evasão de imposto, e a União Europeia já autorizou a Polônia a manter a regra até 2028. O caso italiano vai na mesma direção desde 2015, aplicado a pagamentos feitos por órgãos públicos e estatais.

E aí vem a Romênia, o contraexemplo. Os romenos implantaram o sistema em 2018 e desistiram dele em 1º de fevereiro de 2020, menos de dois anos depois. O motivo não foi tecnologia: foi que a coisa virou um peso administrativo em cima de empresa honesta, e a União Europeia entendeu que o ônus era desproporcional. O Reino Unido chegou a estudar o modelo e engavetou. Um estudo encomendado pela Comissão Europeia em 2017 explica o dilema numa frase: quanto mais largo o split payment, mais ele derruba a sonegação, e mais ele custa para quem nunca sonegou.

📊 O placar lá fora

País Onde vale Resultado
Polônia Setores de risco, notas altas Funcionou
Itália Compras do setor público Funcionou
Romênia Empresas com dívida de imposto Desistiu em 2020
Reino Unido Estudou e não fez Engavetou
Brasil Toda a economia, em tese Ninguém sabe

O padrão é claro: onde o split payment foi cirúrgico, deu certo. Onde ficou largo demais, virou fardo e caiu. O Brasil quer o mais largo de todos.

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Riscos · O robô que devolve

Capital de giro · Crédito · Informalidade · Comitê Gestor · 2027 · 2033

A parte difícil não é o robô cobrar. É o robô devolver.

Reter imposto na hora é fácil. O problema é que nem todo mundo deve o valor cheio: a empresa que já pagou imposto nas compras tem crédito a descontar, e se o sistema retém sem olhar isso, ela paga duas vezes e corre atrás do troco depois. Foi aí que a Romênia travou, e por isso o FMI, mesmo chamando o modelo brasileiro de revolucionário, manda pesá-lo contra o efeito no caixa das empresas.

A resposta brasileira é a parte genuinamente inédita. Antes de separar o dinheiro, o sistema pergunta ao Fisco quanto a empresa de fato deve, já com os créditos descontados; se ela não deve nada, nada é retido. Quando não dá tempo de consultar, vale a contingência: retém, confere e devolve o excedente em até 3 dias úteis. Nenhum outro país tentou essa conversa em tempo real entre nota fiscal, banco e Receita.

É elegante no papel e um pesadelo na prática: centenas de sistemas conversando entre si, quase 70 bilhões de documentos por ano, e R$ 2 bilhões que a Fazenda já pôs em tecnologia só neste ano. Esses 3 dias úteis são a linha entre a reforma dar certo e virar imposto disfarçado sobre o pequeno negócio.

E é ele quem paga dois preços silenciosos, além da espera pela devolução. O primeiro é o capital de giro: hoje o imposto fica até um mês na conta da empresa antes de ser recolhido, e muito negócio usa esse dinheiro para tocar o mês, um empréstimo de graça. Com o split payment, esse fôlego some no primeiro dia. O segundo é a informalidade: o robô só enxerga nota e pagamento eletrônico, então a venda em dinheiro segue fora do alcance. E o aperto no caixa das empresas formais pode empurrar algumas para a informalidade.

⚙ O que pode dar errado

Risco O que está em jogo
O caixa Quem usava o imposto como capital de giro perde esse fôlego. Empresa de margem baixa sente primeiro.
A devolução Se o crédito não voltar em 3 dias, a promessa vira empréstimo compulsório ao governo.
A informalidade Sem nota e sem pagamento eletrônico, não há o que dividir. O robô não enxerga o que nunca foi registrado.
O sistema Se o repasse chegar sem o dado que o identifica, o crédito não é liberado e a empresa fica no prejuízo sem culpa.

O terceiro é o mais subestimado: o split payment não alcança a venda em dinheiro sem nota.

📅 O calendário da virada

2026 é ano de ensaio, com uma alíquota simbólica de 1% só para o sistema rodar. Em junho, a Receita e o Comitê Gestor publicaram a documentação técnica que ensina as empresas a se conectar. O split payment de verdade começa no segundo semestre de 2027, e começa com calma: opcional, só entre empresas, primeiro por Pix, boleto e transferência, com cartão depois. O varejo, que é onde mais dói, fica para o fim. A troca completa dos impostos velhos pelos novos só termina em 2033.

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