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Daily Brew

Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

QUINTA-FEIRA · 13 DE AGOSTO DE 2026

☕ Bom dia

Orçamento. As contas não obrigatórias do governo somam R$ 330,9 bilhões, o caixa comporta R$ 225,4 bilhões, e um terço fica sem pagamento: Saúde e Educação lideram a fila.
Desigualdade. A renda média bateu recorde, mas o 1% mais rico passou a ganhar 31,5 vezes o que ganha a metade mais pobre do país.
Inflação americana. O índice de preços dos EUA marcou 3,4% em doze meses, e o Fed deve deixar os juros parados em setembro. ☕

Fiscal · A fila do caixa

Senado · Orçamento · Restos a pagar · Saúde · Educação · Arcabouço fiscal

Um terço das contas do governo deste ano não cabe no caixa

A Consultoria de Orçamentos do Senado, o corpo técnico que confere as contas do governo federal, divulgou na terça uma soma simples com resultado incômodo. De um lado, tudo o que o governo tem para pagar neste ano em despesas não obrigatórias: R$ 330,9 bilhões. Do outro, o dinheiro disponível para quitá-las: R$ 225,4 bilhões. Faltam R$ 105,5 bilhões, quase um terço da conta.

A conta que não fecha

Despesas não obrigatórias de 2026 e dinheiro disponível para pagá-las, em R$ bilhões

O que há para pagar

 
 
330,9

O que tem de dinheiro para quitar as contas

 
 
225,4

O que fica sem pagamento

 
 
105,5
 
despesas deste ano (R$ 226,3 bi)
 
herdadas de anos anteriores (R$ 104 bi)

Fonte: Consultoria de Orçamentos, Fiscalização e Controle do Senado · Elaboração: Daily Brew

Antes de seguir, vale traduzir os nomes. Despesa não obrigatória é tudo aquilo que não é salário, aposentadoria nem benefício: obra, custeio de universidade, compra de livro didático, emenda parlamentar. Dos R$ 330,9 bilhões, R$ 226,3 bilhões são despesas previstas no Orçamento deste ano. Os outros R$ 104 bilhões são os chamados restos a pagar: despesas de anos anteriores que o governo aprovou, contratou, mas não quitou, e que rolaram para 2026 como uma fatura antiga no cartão. A fatura velha e a conta nova disputam o mesmo dinheiro.

Quem espera nessa fila são os ministérios. A Saúde é quem mais tem pagamento represado, R$ 15,1 bilhões, seguida da Educação, com R$ 13,8 bilhões, e de Cidades, com R$ 7,1 bilhões. O aperto já apareceu em algo bem concreto: a compra de livros didáticos para o ano que vem está entre as despesas sem dinheiro reservado. O Ministério do Planejamento respondeu que a restrição não é definitiva e que os limites podem ser ajustados ao longo do ano, o que é verdade, mas ajustar limite não cria dinheiro: só muda quem espera.

Essa história não é a mesma da dívida pública, que bateu o maior nível em cinco anos e já apareceu algumas vezes por aqui, mas as duas se conversam. Pense numa família endividada: a dívida pública é o saldo devedor de tudo o que já foi pego emprestado, hoje na casa dos R$ 10 trilhões, um número que muda devagar e mede o tamanho do problema acumulado. A conta do Senado é o mês a mês dessa casa: o dinheiro que entra no ano não cobre os boletos do ano, e alguém fica sem receber. Por isso ela incomoda mais rápido: o aperto não está numa projeção para 2035, está no livro, na obra e no repasse deste ano.

E onde entram o superávit e o déficit de que o noticiário fala? Vale abrir a conta inteira do ano, na projeção oficial do próprio governo:

A conta inteira de 2026

Projeção oficial para o ano fechado, em R$ bilhões · não inclui os juros da dívida

Arrecadação total (receita primária) 3.237,2
(−) Transferências a estados e municípios 643,6
(=) Receita líquida da União 2.593,6
Despesa total (sem os juros da dívida) 2.645,6
sendo obrigatórias (salários, INSS, benefícios) 2.419,3
sendo não obrigatórias (a fatia do gráfico acima) 226,3
Resultado do ano: déficit −52,0

Fonte: Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias do 3º bimestre, via Consultoria de Orçamentos do Senado · Elaboração: Daily Brew

Repare nos dois números destacados. Os R$ 226,3 bilhões de despesa não obrigatória são a mesma fatia do gráfico do início: a única parte da despesa que o governo consegue apertar, porque os R$ 2.419 bilhões de salários, aposentadorias e benefícios têm de ser pagos de qualquer jeito. E o resultado do ano é um déficit de R$ 52 bilhões: entra menos dinheiro do que sai. Mesmo assim, o governo afirma que a meta fiscal está cumprida, e não é mentira: a lei permite tirar da conta da meta R$ 62,8 bilhões de gastos, principalmente precatórios (dívidas judiciais que a União é obrigada a pagar). Feito o desconto, o déficit de R$ 52 bilhões vira um superávit de R$ 10,8 bilhões no papel. O dinheiro dos precatórios sai do caixa do mesmo jeito; ele só não conta para a nota de avaliação.

O que a teoria diz

Orçamento autorizativo. No Brasil, a lei orçamentária autoriza o gasto, mas não obriga o governo a executá-lo: aprovar uma despesa não é o mesmo que pagá-la. É assim que pode existir mais despesa aprovada do que dinheiro disponível, e é assim que nasce o resto a pagar, a despesa empurrada de um ano para o outro. A exceção são as emendas parlamentares, a fatia do Orçamento que deputados e senadores destinam a obras e projetos nas suas bases: desde 2015, a Constituição obriga o governo a pagar essa parte, o que deixa ainda menos espaço para todo o resto. No fim, o incentivo é conhecido: prometer no Orçamento é barato, e a conta de verdade fica para quem estiver no cargo quando ela vencer.

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Renda · O andar de cima

Observatório das Desigualdades · Renda · Pobreza · Emprego · IDH

O país ficou melhor na média, e o topo ficou mais longe da base

Em 2025, o rendimento médio do 1% mais rico do Brasil equivaleu a 31,5 vezes o da metade mais pobre da população. Um ano antes, a distância era de 30,2 vezes. O dado está no relatório anual do Observatório Brasileiro das Desigualdades, divulgado nesta quarta, que acompanha dezenas de indicadores do país, de renda e emprego a educação, saúde, segurança alimentar, segurança pública, moradia e meio ambiente. O balanço resume o paradoxo do ano: de cada dez desses indicadores, sete melhoraram, e mesmo assim a concentração de renda cresceu. Todo mundo subiu; o topo subiu mais.

O lado bom é volumoso. O rendimento médio do brasileiro, somando todas as fontes, chegou a R$ 3.376 por mês, um dos maiores valores já registrados, com crescimento de 16,4% desde 2022. Emprego, pobreza, segurança alimentar, homicídios de jovens e desmatamento andaram todos na direção certa. Na lista do que piorou, além da concentração de renda, estão o peso do aluguel no bolso das famílias e o número de pessoas vivendo em áreas de risco.

Os recortes de gênero e raça mostram o mesmo desenho. As mulheres seguem ganhando, em média, 72% do rendimento dos homens, exatamente o mesmo percentual de 2022: quatro anos de mercado de trabalho aquecido não mexeram um ponto nessa régua. Para as mulheres negras, a distância é maior e aumentou: R$ 2.184 mensais, o equivalente a 42% do que ganham os homens não negros.

O retrato bate com o que a ONU mostrou em maio, por outro ângulo. O IDH brasileiro alcançou 0,805, o melhor da história, e o país entrou pela primeira vez no clube do "muito alto desenvolvimento humano", em 82º lugar entre 193 países. Mas quando o mesmo índice é ajustado pela desigualdade, despenca para 0,641, uma perda de cerca de 20%. É a mesma história contada duas vezes: na média, o Brasil nunca esteve tão bem; na distribuição, segue entre os campeões de distância entre o topo e a base.

O que cada índice enxerga

O IDH, calculado pela ONU, resume três médias nacionais (renda por habitante, escolaridade e expectativa de vida) numa nota de 0 a 1, boa para comparar países e décadas. Por ser média, não mostra quem ficou de fora dela; daí existir a versão ajustada à desigualdade, que desconta da nota a distância entre os brasileiros. O Observatório faz o caminho inverso: em vez de uma nota única, acompanha dezenas de indicadores separados por gênero, raça e região, para mostrar exatamente onde a média esconde diferenças. Em resumo: o IDH diz se o país melhora; o Observatório diz para quem.

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Internacional · Teimosia americana

CPI · Fed · Gasolina · Moradia · Salários · Dólar

A inflação americana resiste em 3,4%, e o Fed deve deixar os juros parados

A semana virou um duelo de inflações. Na terça foi a vez do Brasil, com o IPCA de julho em 0,07% e o acumulado de volta para dentro da meta. Na quarta, a dos Estados Unidos: o CPI, o índice de preços ao consumidor americano, subiu 0,1% no mês e marcou 3,4% em doze meses. Parece pouco perto dos nossos 4,44%, mas a meta de lá é 2%, e o índice está longe dela desde o começo do ano.

Dois itens seguram a inflação lá em cima, e são os piores possíveis: a gasolina, 24,6% mais cara em um ano com o petróleo pressionado desde a crise no Oriente Médio, e a moradia, o item de maior peso do índice, que sozinha respondeu por dois terços da alta de julho. Enquanto isso, os salários crescem 3,2% ao ano, menos que a inflação de 3,4%. Ou seja: o trabalhador americano médio está ficando um pouco mais pobre a cada mês, mesmo com emprego de sobra.

Para o Fed, o banco central americano, o número em linha com o esperado consolidou a aposta de que os juros ficam onde estão, entre 3,50% e 3,75% ao ano, na reunião de setembro. Sem surpresa na inflação, não há motivo para aperto novo. O dólar passou o dia comportado por aqui e fechou em R$ 5,15, em leve queda.

A conta que interessa ao leitor brasileiro é o contraste: o juro americano parado e a Selic (a taxa básica daqui) em 14% ao ano, caindo devagar. Essa diferença mantém o Brasil entre os países que mais pagam a quem traz dinheiro de fora, o que ajuda a segurar o dólar e, de tabela, a inflação daqui. O risco mora na gasolina: se a energia continuar subindo nos EUA, o Fed trava, o alívio global demora, e sobra menos espaço para o Banco Central brasileiro acelerar os cortes.

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📈 Mercados — Fechamento Quarta 12/08

Ativo Fechamento Dia
Ibovespa 167.491 pts ↓ −0,23%
Dólar (spot) R$ 5,15 ↓ −0,28%
Petróleo Brent US$ 89,24 ↑ +0,37%
Ouro US$ 4.468 ↑ +1,94%
S&P 500 7.748 pts ↑ +0,26%
Dow Jones 53.770 pts ↓ −0,04%
Nasdaq 26.588 pts ↑ +0,54%
Bitcoin US$ 63.461 ↓ −0,14%

Fontes: B3, Yahoo Finance, TheStreet e Trading Economics · fechamento de 12/08 (Brent, ouro e bitcoin em cotação de fim de dia; valores podem variar por contrato e horário) · Elaboração: Daily Brew.

📅 O que vem aí

Quinta · 13/08

Varejo. o IBGE divulga as vendas do comércio em junho e fecha o retrato da atividade no mês: serviços vieram estáveis, falta saber se a família continuou comprando com o juro nesse nível.

Domingo · 16/08

Eleições. começa oficialmente a propaganda eleitoral, com 13 candidaturas à Presidência registradas. Para a economia, o que passa a contar é o discurso fiscal de cada campanha.

📚 Vale ler

Governo tem R$ 105,5 bilhões em despesas que não cabem no limite de pagamentos

O detalhamento da conta do bloco de abertura, ministério por ministério, e a resposta do Planejamento sobre os limites de pagamento.

Forbes Brasil

Brasil melhorou em 71% dos dados de desigualdade, mas concentração de renda subiu

A cobertura do relatório do segundo bloco, com os recortes de gênero, raça e região que não couberam aqui.

InfoMoney

Consumer prices rose 0.1% in July, with annual inflation at 3.4%

A íntegra do dado americano do último bloco, com a abertura por itens e a reação dos mercados (em inglês).

CNBC

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