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Daily Brew

Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

QUINTA-FEIRA · 27 DE AGOSTO DE 2026

☕ Bom dia

IA na escola. Um estudo com 26,8 mil alunos chineses mostra que a inteligência artificial sobe a nota do dever de casa em 18% e derruba a da prova em 20%.
Canadá. Com as tarifas de 50% de Trump em vigor, o país marcou o troco para 8 de setembro: dólar por dólar.
Habib's. A dona da esfiha entrou em recuperação judicial com dívida de R$ 265 milhões; as lojas seguem abertas. ☕

Educação · Atalho caro

IA · Dever de casa · Vestibular · CEPR · China · Escolas

A IA melhora a nota do dever de casa. E derruba a nota da prova

Pesquisadores da Universidade de Estocolmo e da Universidade de Hong Kong acompanharam 26.811 estudantes chineses, do 7º ao 12º ano, por 30 meses e nove matérias, cruzando as notas do dever de casa com as de provas mensais feitas sem consulta. O estudo, publicado de forma preliminar pelo CEPR (um centro europeu de pesquisa econômica), mede o que acontece quando o aluno adota inteligência artificial generativa, tipo ChatGPT, por conta própria, no dia a dia real da escola. O efeito imediato parece milagre de produtividade: a nota do dever sobe 18% e o tempo médio por tarefa cai de 64 para 45 minutos.

A conta chega na prova: em seis meses, as notas dos exames mensais caem 20%. Os três gráficos abaixo, tirados do próprio estudo, contam a história inteira. Neles, o vermelho é o aluno depois de adotar a IA; o verde, esse mesmo aluno antes da IA; o azul, quem nunca usou:

De cima para baixo: a distribuição das notas do dever de casa, do tempo de conclusão da tarefa (em minutos) e das notas de prova, em % da média da turma. Vermelho: alunos depois de adotarem IA (Post AI); verde: os mesmos alunos antes (Pre AI); azul: quem nunca usou (Never AI). Fonte: Strömberg, Lei e Wu, CEPR (2026).

No primeiro gráfico, a curva vermelha descola para a direita: com IA, o dever de casa vira festival de nota alta. No segundo, ela desaba para a esquerda: a tarefa é despachada em muito menos tempo. No terceiro, o desenho se inverte: na prova, sem consulta, a curva vermelha escorrega para a esquerda do resto da turma. Dever brilhante, prova pior.

Esse padrão (dever quase perfeito em tempo recorde, prova ruim) é o que os autores chamam de terceirização do dever de casa: pedir a resposta pronta em vez de usar a ferramenta para entender o caminho. É o comportamento de 81% dos usuários de IA da amostra, e é neles que a perda se concentra. Já o aluno que usa IA mas segue gastando o mesmo tempo de sempre na tarefa vai tão bem na prova quanto quem não usa. O problema não é a ferramenta; é o que ela permite pular.

No longo prazo, o estrago aparece onde mais dói: nos vestibulares que definem a vida escolar chinesa. A queda é de 24% no zhongkao (o exame de entrada do ensino médio) e de 18% no gaokao (o vestibular universitário). E esse prejuízo demora uns dois anos para se revelar por inteiro, o que sugere que os estudos mais curtos vinham subestimando o tamanho do rombo. As perdas são maiores em humanas (política e geografia caem 27%), depois exatas (22%) e línguas (inglês 17%, chinês 9%), e pesam mais sobre os alunos mais novos, os de melhor desempenho e os meninos.

Um consolo no fim do túnel: essa perda de aprendizado vem encolhendo, de cerca de 25% no início de 2023 para 16% em meados de 2025. Alunos e professores parecem estar aprendendo a conviver com a ferramenta. Devagar. Como quem faz o dever sem IA.

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📌 O número do dia

−0,40%

A PRÉVIA DA INFLAÇÃO DE AGOSTO

O IPCA-15, a prévia do índice oficial de inflação, teve na quarta sua primeira taxa negativa do ano, mais funda do que o mercado esperava. O empurrão veio da conta de luz: o grupo habitação caiu 1,41% com o bônus de Itaipu creditado nas faturas, um alívio pontual, e transportes recuou 1%. Em 12 meses, o índice desacelerou de 4,52% para 4,24% e voltou a caber no teto da meta, de 4,5%. Deflação no mês não quer dizer preços baixos; quer dizer que, por ora, eles andaram para trás.

Internacional · Vizinho tarifado

EUA · Canadá · Trump · Carney · USMCA · Tarifas

Trump tarifou o Canadá em 50%, e o troco vem em setembro, dólar por dólar

Desde sábado, cerca de US$ 28 bilhões em produtos canadenses pagam tarifa adicional de 50% para entrar nos Estados Unidos: carros e autopeças, laticínios, bebidas, cimento, eletrônicos, roupas e até equipamento de hóquei. Foi o fim de uma semana de reviravoltas. Dias antes, Trump tinha anunciado nas redes, em maiúsculas, que havia acordo ("DEAL!"), e adiou a tarifa por três dias para acertar os detalhes. Os detalhes nunca chegaram: a conversa ruiu na sexta à noite, horas antes de o prazo vencer, e a tarifa entrou em vigor. Para o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, a culpa foi dos americanos: "pediram demais e ofereceram de menos".

Na terça o Canadá formalizou a resposta, com um Carney em tom de guerra ("quando você é atacado, está em guerra"): tarifas de retaliação sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos americanos, com alíquotas de 15% a 50%, valendo a partir de 8 de setembro. Na mira:

  • Aço, eletrodomésticos e máquinas agrícolas americanas;
  • Laticínios, papel e celulose e eletrônicos.

As negociações seguem suspensas, e Trump já ameaça nova rodada, sobre veículos e aço. O mercado sentiu: o dólar canadense caiu ao menor patamar em meses, na maior queda diária em mais de dois meses. E um detalhe torna o caso especial: as tarifas americanas valem inclusive para produtos que cumprem as regras do USMCA, o acordo comercial entre EUA, México e Canadá assinado pelo próprio Trump no primeiro mandato. Ter tratado assinado não protegeu ninguém.

E daí?

O Brasil assiste a isso da mesma fila: paga tarifa adicional de 25% desde julho, sobre cerca de um quinto do que exporta aos EUA, e ainda negocia uma saída. O caso canadense ensina duas coisas. Primeiro, o padrão do jogo: acordo anunciado, prazo curto, colapso e tarifa maior, o que recomenda ceticismo com qualquer "acordo iminente" envolvendo o Brasil. Segundo, o alcance: se nem o vizinho aliado, com tratado assinado, escapou, a régua para os outros é ainda mais dura. Para o bolso, guerra tarifária entre dois dos maiores parceiros comerciais do mundo significa cadeias de produção mais caras, e essa conta costuma rodar o planeta.

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Empresas · A esfiha pede socorro

Habib's · Ragazzo · Gennius · KPMG · Selic · Serasa

A dona do Habib's entrou em recuperação judicial com dívida de R$ 265 milhões

A Justiça de São Paulo aceitou na segunda o pedido de recuperação judicial do grupo Gennius, dono do Habib's, do Ragazzo e das churrascarias Tendall Grill: R$ 265,2 milhões de dívida declarada, 178 empresas do conglomerado no processo, a consultoria KPMG nomeada administradora e 60 dias para apresentar o plano de reestruturação aos credores. As lojas (119 Habib's, 26 Ragazzo e 6 churrascarias) seguem funcionando normalmente: recuperação judicial não é falência, é um fôlego sob supervisão do juiz enquanto a empresa renegocia o que deve.

O desfecho encerra uma novela que corria desde julho, quando o grupo conseguiu uma blindagem de 60 dias contra cobranças para tentar renegociar as dívidas fora do tribunal, o caminho que a Braskem, de quem falamos na terça, conseguiu seguir. O prazo era improrrogável, venceria em 1º de setembro, e o acordo não veio. Nas causas, o grupo lista a pandemia, o delivery que mudou o hábito de quem jantava na loja e a Selic (a taxa básica de juros), que saltou de 4% para a casa dos 15% em poucos anos e encareceu a dívida.

E é aqui que a esfiha vira estatística. Na sexta, mostramos que o Brasil vive uma fila recorde de empresas em recuperação judicial, e que a expectativa era de novos recordes neste ano. A expectativa vem se cumprindo: foram 194 pedidos só no primeiro trimestre de 2026, subindo mês a mês, segundo a Serasa Experian. O Habib's acaba de virar o rosto mais famoso dessa fila. E o fio que costura tudo é a Selic: com o juro nas alturas, a dívida que era administrável em 2021 virou a conta que não fecha em 2026.

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📈 Mercados — Fechamento Quarta 26/08

Ativo Fechamento Dia
Ibovespa 174.586 pts ↑ +0,01%
Dólar (comercial) R$ 5,15 ↑ +0,22%
Petróleo Brent US$ 87,84 ↓ −0,84%
Ouro US$ 4.630 ↓ −0,61%
S&P 500 7.676 pts ↓ −0,02%
Dow Jones 53.464 pts ↓ −0,21%
Nasdaq 26.130 pts ↓ −0,08%
Bitcoin US$ 78.448 ↓ −0,15%

Fontes: B3, InfoMoney, TradingEconomics e Yahoo Finance · fechamento de 26/08 (Brent no contrato de outubro; ouro e bitcoin em cotação de fim de dia; valores podem variar por contrato e horário) · Elaboração: Daily Brew.

📅 O que vem aí

Hoje · 9h

Emprego. O IBGE divulga a taxa de desemprego do trimestre encerrado em julho.

Sexta · 28/08

Eleições. Estreia a propaganda eleitoral no rádio e na TV.

Segunda · 31/08

Orçamento de 2027. A proposta chega ao Congresso com o salário mínimo de R$ 1.741. No mesmo dia vence o prazo para o lucro do FGTS (R$ 13 bilhões) cair nas contas dos trabalhadores.

📚 Vale ler

The Generative AI Learning Penalty: Evidence from Chinese Secondary Education

O paper íntegro do bloco de abertura, com a metodologia dos 30 meses de dados e os resultados por matéria (em inglês).

CEPR

Carney diz que o Canadá "está em guerra" com os EUA

A fala do primeiro-ministro canadense após o colapso da negociação e os planos da retaliação de setembro (em inglês).

NPR

Os detalhes da recuperação judicial do grupo do Habib's

A decisão que aceitou o pedido, as 178 empresas do processo e o mapa de lojas das três marcas do grupo.

ND Mais

O detalhamento da prévia da inflação de agosto

A abertura por grupo do IPCA-15 do número do dia, com o efeito do bônus de Itaipu na conta de luz.

CNN Brasil