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Daily Brew

Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

QUARTA-FEIRA · 26 DE AGOSTO DE 2026

☕ Bom dia

Consumidor. A confiança medida pela FGV caiu ao menor nível desde novembro de 2022; é a quarta queda seguida.
Tesouro Direto. O dinheiro emprestado ao governo pelas pessoas físicas chegou a R$ 272 bilhões, alta de 46% em um ano.
Argentina. Um experimento com 11 mil eleitores mostrou que evidência acadêmica e jornal mudam crenças sobre a economia (e voto); rede social, quase nada. ☕

Consumo · Ânimo em baixa

FGV · Famílias · Selic · Endividamento · Varejo · Copom

A confiança do consumidor caiu ao menor nível desde 2022

Todo mês, a FGV (Fundação Getúlio Vargas) pergunta a milhares de brasileiros como está a vida financeira da casa e o que eles esperam dos próximos meses. A resposta de agosto, divulgada nesta terça, veio azeda: o Índice de Confiança do Consumidor caiu 3,6 pontos, para 84,7, o nível mais baixo desde novembro de 2022. Na régua da FGV, acima de 100 pontos o consumidor está otimista; a 84,7, ele está bem longe disso. O gráfico abaixo mostra os últimos dois anos: o tombo na virada de 2024 para 2025, uma recuperação lenta que durou o ano passado inteiro e, desde abril, quatro quedas seguidas que devolveram tudo, até furar o piso anterior.

Índice de Confiança do Consumidor da FGV nos últimos 24 meses, com ajuste sazonal, em pontos. A leitura de agosto (84,7) fica abaixo do vale de março de 2025 (84,8) e é a mais baixa desde novembro de 2022. Fonte: FGV Dados/Ibre.

Um detalhe que chama atenção está na composição. A avaliação do momento presente quase não mudou (caiu 0,6 ponto, para 83,8). O que desabou foram as expectativas para os próximos meses: queda de 5,4 pontos, para 86,1. Em bom português: o aperto de hoje é o mesmo, mas a esperança de melhora encolheu. E a piora apareceu em todas as faixas de renda, não só na base.

Os suspeitos são conhecidos. As famílias estão endividadas como nunca: 82% delas carregam alguma dívida, segundo a confederação do comércio (CNC), e o salário de mais da metade dos trabalhadores acaba antes do mês. E a dívida está cara: com a Selic (a taxa básica de juros) em 14% ao ano, o juro médio dos empréstimos comuns às famílias roda na casa dos 60% ao ano. O emprego perto da mínima histórica segura a renda, mas não sobra fôlego: para a economista da FGV que acompanha a sondagem, o resultado sinaliza desaceleração do consumo das famílias no segundo semestre.

E daí?

O consumo das famílias responde por cerca de 60% do PIB (Produto Interno Bruto, o tamanho total da economia). Quando ele esfria, a economia inteira desacelera: a venda que não acontece vira receita que falta na empresa e vaga que não abre. O consolo, se é que existe, fica com o Banco Central (BC): demanda mais fraca ajuda a inflação a ceder, o que abre caminho para seguir cortando juros nas próximas reuniões do Copom (o comitê do BC que define a Selic). É o remédio fazendo efeito, com o gosto de sempre.

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📌 O número do dia

R$ 1.741

O SALÁRIO MÍNIMO PROPOSTO PARA 2027

Anunciado pelo ministro da Fazenda na noite de segunda, depois de reunião com Lula: R$ 120 acima do piso atual e R$ 24 acima da estimativa de abril. Como cada R$ 1 de aumento custa R$ 413 milhões por ano ao Orçamento, os R$ 24 extras chegam com uma conta de quase R$ 10 bilhões. E, ao contrário das simulações que contamos ontem, o ministro garantiu: aposentadorias e benefícios seguem atrelados ao piso. O número vai no Orçamento que o Congresso recebe na segunda; o valor final só sai em dezembro.

Investimentos · Fila no Tesouro

Tesouro Direto · Tesouro Selic · Renda fixa · B3 · Poupador · Dívida pública

Os brasileiros já emprestam R$ 272 bilhões ao governo, 46% mais que há um ano

O Tesouro Direto é o programa que permite a qualquer pessoa, pela internet, comprar títulos públicos: na prática, emprestar dinheiro ao governo em troca de juros. O balanço de julho, divulgado nesta terça pelo Tesouro Nacional, mostra uma fila que não para de crescer: R$ 11,7 bilhões em vendas no mês e, descontados os resgates de R$ 4,3 bilhões, R$ 7,4 bilhões líquidos entrando no caixa do governo. Com isso, o estoque total emprestado chegou a R$ 272,3 bilhões, alta de 46,6% sobre julho do ano passado.

E o poupador não está escolhendo aventura. Metade do dinheiro novo foi para os títulos atrelados à Selic, que rendem a taxa básica de juros e funcionam como o colchão mais seguro do mercado:

Para onde foi o dinheiro em julho

Atrelados à Selic 51,2%
   
Atrelados à inflação (IPCA+, RendA+, EducA+) 33,4%
   
Prefixados 15,5%
   

Fatia de cada grupo de títulos nas vendas de julho (R$ 11,7 bilhões). Fonte: Tesouro Nacional · Elaboração: Daily Brew

O retrato é de gente comum: foram 1,44 milhão de compras no mês, 78,4% delas de até R$ 5 mil. A base de investidores ativos, quem efetivamente tem dinheiro aplicado, cresceu 119 mil pessoas em julho, chegou a 3,8 milhões e sobe 22,9% em um ano. A curva abaixo mostra o tamanho que essa fila ganhou em dez anos:

Número de investidores ativos do Tesouro Direto, em milhões, de julho de 2016 a julho de 2026. Curva reproduzida do Balanço oficial do Tesouro Direto de julho de 2026. Fonte: Tesouro Nacional.

A explicação cabe num número: com a Selic em 14% ao ano, o título público atrelado a ela rendeu quase 15% nos últimos 12 meses. Enquanto o investidor estrangeiro tirou R$ 22 bilhões da bolsa brasileira em agosto, o investidor local foi para a renda fixa.

Antes de comemorar, dois lembretes. Primeiro: renda fixa não é preço fixo no meio do caminho. Quem vende um título antes do vencimento recebe o preço do dia, e em julho o preço dos papéis com vencimento mais longo caiu. Quem segura até o fim recebe exatamente o que contratou. Segundo: do outro lado do balcão, o mesmo juro que engorda a aplicação do poupador é o que o Tesouro paga para rolar a dívida pública. A festa da renda fixa sai do orçamento de todos.

🎓 O que a teoria diz

Custo de oportunidade. Todo investimento é comparado com a alternativa que você abre mão de ter. Quando o título mais seguro do país paga 14% ao ano, qualquer negócio arriscado (uma ação, uma expansão de fábrica, um imóvel para alugar) precisa prometer bem mais que isso para valer a pena. É por essa porta que o juro alto esvazia a bolsa e enche o Tesouro: não porque o brasileiro descobriu a renda fixa, mas porque a régua de comparação subiu.

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Comportamento · A grama do vizinho

NBER · Acemoglu · Argentina · Crenças · Redes sociais · Eleições

Evidência e jornal mudam o que o eleitor pensa da economia. Rede social, quase nada

Um estudo preliminar do NBER (o escritório nacional de pesquisa econômica dos EUA), divulgado neste mês por uma equipe liderada por Daron Acemoglu, vencedor do Nobel de Economia de 2024, fez uma pergunta simples: o que acontece com as crenças de um eleitor quando ele recebe informação econômica de verdade? Para responder, os pesquisadores rodaram dois experimentos com 11.377 argentinos nas vésperas da eleição presidencial de 2023, a que Javier Milei venceria.

O ponto de partida era uma crença espalhada: 47% dos entrevistados achavam que a economia teria ido melhor sob o comando de um líder ao mesmo tempo populista e autoritário: aquele que fala em nome do povo contra as elites e que concentra poder passando por cima das instituições. A literatura econômica sobre esses governos diz o contrário: em média, países liderados assim terminam com PIB cerca de 10% menor depois de 15 anos, e regimes militares, 20% menor depois de 25, segundo os estudos de referência citados no experimento.

Curiosidade metodológica: os vídeos apresentados durante o experimento nunca usam a palavra "populismo", considerada carregada demais; descrevem apenas as características e deixam o rótulo de fora.

Quando os participantes recebiam essa evidência, as crenças se moviam, e as atitudes iam atrás: caía o apoio a esse estilo de liderança e, no experimento feito antes do segundo turno, a intenção de voto em Milei recuou 1,6 ponto percentual (numa eleição decidida por 11,6 pontos). Mas o achado mais interessante está em quem entrega a informação:

A mesma informação, três mensageiros

Evidência acadêmica · empurrão de 8,9
O maior efeito sobre as crenças, estatisticamente sólido.

Jornais · empurrão de 6,8
Efeito grande e significativo, logo atrás da evidência acadêmica.

Redes sociais · empurrão de 2,5
Efeito pequeno e estatisticamente indistinguível de zero.

Efeito de cada fonte sobre as crenças, em centésimos de desvio-padrão (quanto maior, mais a fonte move a opinião). Fonte: NBER (Acemoglu e coautores, 2026) · Elaboração: Daily Brew

Dois detalhes ampliam o alcance do resultado. Notícia negativa move mais as crenças do que notícia positiva. E as redes sociais, justamente o canal em que a correção menos funciona, são de onde 81% dos entrevistados dizem tirar sua informação política (jornais: 54%).

O estudo também mediu o limite da correção: quem via a própria crença contrariada passava a pedir menos informação dali em diante, padrão que a economia comportamental chama de raciocínio motivado. A mente até aceita perder uma discussão; assinar a série completa da realidade é pedir demais.

E daí?

O estudo é sobre a Argentina, mas o mecanismo não tem fronteira nem lado: crenças sobre a economia movem voto, e a fonte da informação importa mais do que o volume dela. Na sexta começa a propaganda eleitoral no rádio e na TV por aqui, e as redes sociais serão o principal campo de batalha das campanhas. O experimento sugere um paradoxo: é justamente o canal onde a informação menos corrige crenças, e mais circula.

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📈 Mercados — Fechamento Terça 25/08

Ativo Fechamento Dia
Ibovespa 174.577 pts ↑ +1,55%
Dólar (spot) R$ 5,14 ↓ −0,25%
Petróleo Brent US$ 89,14 ↓ −3,30%
Ouro US$ 4.718 ↑ +1,67%
S&P 500 7.677 pts ↑ +0,32%
Dow Jones 53.577 pts ↑ +0,30%
Nasdaq 26.151 pts ↑ +0,66%
Bitcoin US$ 78.270 ↓ −0,88%

Fontes: B3, Reuters, Money Times e Yahoo Finance · fechamento de 25/08 (Brent no contrato de referência; ouro e bitcoin em cotação de fim de dia; valores podem variar por contrato e horário) · Elaboração: Daily Brew.

📅 O que vem aí

Hoje · 9h

IPCA-15. O IBGE divulga a prévia da inflação de agosto.

Quinta · 27/08

Emprego. O IBGE divulga a taxa de desemprego do trimestre encerrado em julho.

Sexta · 28/08

Eleições. Estreia a propaganda eleitoral no rádio e na TV.

Segunda · 31/08

Orçamento de 2027. A proposta chega ao Congresso com o salário mínimo de R$ 1.741. No mesmo dia vence o prazo para o lucro do FGTS (R$ 13 bilhões) cair nas contas dos trabalhadores.

📚 Vale ler

Os números completos da confiança do consumidor em agosto

A cobertura da sondagem da FGV citada no bloco de abertura, com a análise da economista responsável.

Diário do Grande ABC · Estadão Conteúdo

O balanço oficial do Tesouro Direto em julho

O documento íntegro citado no segundo bloco, com a divisão por título, prazo e o perfil dos investidores.

Tesouro Nacional

Where the Grass Seems Greener: Economic Misperceptions and Support for Democracy

O paper íntegro do terceiro bloco, com a metodologia dos dois experimentos e todas as tabelas (em inglês).

NBER

Como o governo chegou aos R$ 1.741 do salário mínimo de 2027

A fórmula do reajuste (inflação mais crescimento do PIB de dois anos antes) por trás do número do dia.

Exame